A crise da habitação tornou-se um dos maiores problemas económicos e sociais de Portugal. Comprar casa é cada vez mais difícil, as rendas absorvem uma parte crescente dos rendimentos familiares e milhares de pessoas são obrigadas a viver longe do local onde trabalham.
Perante esta realidade, é natural procurar responsáveis. Entre os alvos mais frequentes encontram-se os bancos, os investidores estrangeiros, o alojamento local, os proprietários, os promotores imobiliários, o Estado e, naturalmente, as imobiliárias.
Mas será justo afirmar que as agências imobiliárias são responsáveis pela crise da habitação?
Resposta direta
As imobiliárias não são a causa principal da crise da habitação em Portugal. No entanto, determinadas práticas do setor podem contribuir para aumentar os preços anunciados, alimentar expectativas irrealistas e reforçar a pressão especulativa em algumas zonas.
As agências operam dentro de um mercado marcado por escassez de oferta, elevada procura, lentidão urbanística, custos de construção, falta de habitação pública, concentração populacional e forte valorização do imobiliário.
Por isso, é mais correto dizer que as imobiliárias podem amplificar algumas tendências do mercado, mas não criaram os problemas estruturais que estão na origem da crise.
Segundo os dados anuais mais recentes do Instituto Nacional de Estatística, os preços da habitação em Portugal aumentaram 17,6% em 2025 e o número de transações cresceu 8,6%. No quarto trimestre de 2025, o preço mediano das casas transacionadas no país atingiu 2.198 euros por metro quadrado.
A própria OCDE concluiu, no seu estudo económico sobre Portugal publicado em 2026, que os problemas de acessibilidade à habitação resultam de uma combinação entre dificuldades estruturais do mercado e uma recuperação intensa da procura. Entre os problemas identificados encontram-se o baixo investimento residencial, as barreiras regulatórias, a debilidade do mercado de arrendamento e a utilização pouco eficiente de parte do parque habitacional.
O que significa ser responsável pela crise da habitação?
Antes de atribuir responsabilidades, é necessário distinguir três conceitos diferentes:
Causa estrutural
Uma causa estrutural é um fator que limita permanentemente a quantidade de casas disponíveis ou que impede o mercado de responder à procura.
São exemplos:
- falta de construção nova;
- demora nos processos urbanísticos;
- escassez de terrenos com capacidade construtiva;
- falta de mão de obra;
- custos elevados de materiais e financiamento;
- pouca habitação pública ou acessível;
- imóveis devolutos que não regressam ao mercado.
Fator de pressão
Um fator de pressão não cria necessariamente a escassez, mas aumenta a procura ou retira casas do mercado residencial.
Podem enquadrar-se nesta categoria:
- crescimento populacional em determinadas regiões;
- migração para os centros urbanos;
- procura turística;
- compra para investimento;
- alojamento local;
- aumento do número de famílias;
- incentivos públicos à aquisição.
Amplificador do mercado
Um amplificador influencia a perceção dos preços, a velocidade das transações e as expectativas de compradores e vendedores.
É sobretudo nesta categoria que as imobiliárias podem ter influência.
Uma agência não decide quantas casas são construídas em Portugal, não aprova projetos nas câmaras municipais e não controla as taxas de juro. No entanto, pode influenciar o preço pelo qual um imóvel é colocado no mercado, a forma como é promovido e a pressão exercida durante a negociação.
De que forma as imobiliárias podem influenciar os preços das casas?
1. Definição do preço inicial do anúncio
Quando um proprietário decide vender uma casa, uma das primeiras perguntas é:
Quanto vale o meu imóvel?
Na maioria das situações, o proprietário não conhece os valores reais pelos quais foram vendidas as casas semelhantes na mesma zona. Consulta portais imobiliários, pergunta a vizinhos ou solicita a opinião de uma ou mais agências.
É importante distinguir uma avaliação imobiliária formal de um estudo comparativo de mercado.
A legislação portuguesa estabelece deveres de exatidão e clareza para as empresas de mediação e impede que estas realizem avaliações formais dos imóveis integrados nas suas próprias carteiras. Uma agência pode apresentar uma análise comercial ou comparativa, mas essa opinião não substitui uma avaliação realizada por um perito independente.
O problema surge quando a análise comercial se baseia principalmente nos preços dos anúncios existentes.
Um imóvel anunciado por 400.000 euros não foi necessariamente vendido por esse valor. Pode permanecer meses no mercado, sofrer reduções ou ser vendido por um preço substancialmente inferior.
Quando os preços anunciados são utilizados como principal referência para definir novos anúncios, pode formar-se um círculo de valorização artificial:
- Uma casa é anunciada acima do valor provável de venda.
- Outros proprietários utilizam esse anúncio como referência.
- Novas casas entram no mercado por valores ainda mais elevados.
- Os portais passam a mostrar uma subida do preço médio anunciado.
- Essa subida influencia novos vendedores e compradores.
Esta dinâmica não significa que todas as casas sejam vendidas pelos valores pedidos. Significa, porém, que os preços de anúncio podem alterar a perceção coletiva sobre o valor de uma determinada localização.
2. Competição para conquistar a angariação
Em algumas situações, várias agências competem pelo direito de comercializar o mesmo imóvel.
O proprietário tende naturalmente a preferir a agência que promete vender pelo preço mais elevado. Isso pode criar um incentivo para apresentar estimativas demasiado otimistas apenas para conseguir o contrato de mediação.
Imagine que três agências apresentam as seguintes opiniões:
- Agência A: 290.000 euros;
- Agência B: 310.000 euros;
- Agência C: 350.000 euros.
Mesmo que as duas primeiras estimativas estejam mais próximas da realidade, o proprietário pode escolher a terceira por acreditar que receberá mais dinheiro.
A casa entra então no mercado por 350.000 euros, permanece vários meses sem comprador e acaba por sofrer sucessivas reduções.
Esta prática também prejudica o proprietário. Um imóvel sobrevalorizado pode perder o impacto inicial do lançamento, ficar associado à ideia de que “há algum problema” e afastar compradores financeiramente qualificados.
Uma boa agência deve ser capaz de justificar a sua recomendação com dados concretos, imóveis comparáveis, características da zona, estado de conservação, área útil, documentação e procura efetivamente existente.
3. Comissões calculadas sobre o valor de venda
Em Portugal, a remuneração das empresas de mediação pode ser definida em valor fixo ou em percentagem. As condições, a forma de pagamento e o IVA aplicável têm obrigatoriamente de constar do contrato de mediação imobiliária.
Quando a comissão corresponde a uma percentagem do preço, existe teoricamente um interesse comum entre proprietário e agência: quanto maior for o valor da venda, maior será a remuneração.
Contudo, a relação não é tão simples quanto parece.
Para o proprietário, vender por mais 10.000 euros pode representar uma diferença financeira significativa. Para a agência ou consultor, o ganho adicional correspondente à comissão sobre esses 10.000 euros pode ser relativamente reduzido depois da divisão entre consultor, agência, rede, despesas e impostos.
Por essa razão, podem existir dois incentivos contraditórios:
- tentar colocar o imóvel no mercado por um preço elevado para conquistar a angariação;
- aceitar posteriormente uma proposta mais baixa para concluir rapidamente a transação.
A comissão não torna automaticamente a agência responsável pelo aumento dos preços. Mas exige transparência para que o proprietário compreenda quanto está a pagar, quais os serviços incluídos e que interesses estão presentes na negociação.
4. Inclusão indireta da comissão no preço pedido
Formalmente, a comissão é normalmente paga pela pessoa ou entidade que contratou a agência, frequentemente o proprietário.
Na prática, o vendedor pode tentar incorporar esse custo no preço pedido.
Por exemplo, um proprietário que pretenda receber um determinado valor líquido poderá acrescentar ao preço:
- comissão da imobiliária;
- IVA sobre a comissão;
- custos de documentação;
- margem para negociação;
- despesas futuras relacionadas com a mudança ou aquisição de outra casa.
Isso não significa que o comprador pague automaticamente toda a comissão. O preço final dependerá da procura, da capacidade financeira dos interessados, da avaliação bancária e da negociação.
Ainda assim, num mercado com pouca oferta e muitos compradores, é mais fácil transferir parte destes custos para o preço final.
5. Promoção de imóveis como produtos de investimento
O mercado imobiliário deixou de ser apresentado apenas como um meio de satisfazer uma necessidade habitacional. Em muitos casos, passou a ser promovido como um ativo financeiro.
Expressões como estas tornaram-se frequentes:
- “oportunidade de investimento”;
- “rentabilidade garantida”;
- “produto para investidores”;
- “excelente potencial de valorização”;
- “ideal para alojamento local”;
- “última oportunidade”;
- “zona em forte crescimento”.
Esta linguagem não é necessariamente enganosa. Um imóvel pode efetivamente representar um investimento interessante.
O problema surge quando a habitação é promovida quase exclusivamente como um produto financeiro, afastando progressivamente famílias que procuram uma casa para viver.
As imobiliárias internacionais e as campanhas dirigidas a investidores conseguem ainda divulgar imóveis portugueses a públicos com rendimentos e capacidade financeira muito superiores aos da população local.
Essa internacionalização pode trazer investimento, recuperar edifícios e aumentar a atividade económica. Mas também pode intensificar a concorrência por uma oferta já limitada, especialmente em Lisboa, Porto, Algarve, Madeira e zonas costeiras.
A OCDE observa que as maiores pressões de preços têm ocorrido sobretudo nas regiões urbanas e costeiras, onde se concentram população, turismo e atividade económica. A migração interna para essas regiões reforça igualmente a pressão local.
6. Criação de urgência e medo de perder a oportunidade
A mediação imobiliária envolve técnicas comerciais, tal como acontece noutros setores.
Algumas são legítimas e úteis. Informar um comprador de que existem outras propostas pode ajudá-lo a tomar uma decisão.
O problema aparece quando são utilizadas mensagens de pressão sem suporte real:
- “há vários interessados prontos para avançar”;
- “tem de decidir hoje”;
- “amanhã o proprietário aumenta o preço”;
- “já existe uma proposta igual à sua”;
- “esta oportunidade não volta a aparecer”.
A escassez real de casas faz com que estas mensagens sejam particularmente eficazes. O comprador receia perder o imóvel e pode oferecer mais do que tinha planeado ou dispensar verificações importantes.
Uma empresa de mediação tem o dever legal de apresentar as características, o preço e as condições do imóvel com exatidão e clareza, sem induzir os destinatários em erro. Também deve comunicar factos que possam colocar em causa a concretização do negócio.
7. Processos informais de propostas múltiplas
Quando existem vários compradores para o mesmo imóvel, o proprietário tem o direito de escolher a proposta que considera mais vantajosa.
Contudo, Portugal não dispõe de um sistema único e obrigatório para organizar processos competitivos de propostas.
Dependendo da agência, os interessados podem desconhecer:
- quantas propostas existem;
- se foram apresentadas por escrito;
- se incluem financiamento bancário;
- se o preço é o único critério;
- se o proprietário recebeu efetivamente todas as propostas;
- se existe uma proposta concorrente ou apenas interesse informal.
Uma maior padronização destes procedimentos poderia aumentar a confiança no setor.
As propostas deveriam ser documentadas, datadas e transmitidas ao proprietário, respeitando simultaneamente a proteção dos dados dos restantes compradores.
Porque é que as imobiliárias não são a causa principal da crise?
Apesar dos fatores anteriores, seria incorreto transformar as agências imobiliárias no principal responsável pela crise.
1. Portugal construiu pouco durante muitos anos
A oferta de habitação não acompanhou a recuperação da procura.
Depois das crises económica, financeira e da construção, muitas empresas desapareceram, a mão de obra especializada diminuiu e o investimento residencial permaneceu reduzido.
A OCDE considera que o investimento habitacional português foi fraco durante as últimas duas décadas. Identifica ainda baixa produtividade no setor da construção, escassez de trabalhadores qualificados, custos crescentes e obstáculos regulatórios ao investimento.
Uma imobiliária pode vender uma casa existente. Não consegue, por si só, criar milhares de novas habitações onde a procura é maior.
Enquanto a oferta continuar a crescer lentamente, o preço tenderá a permanecer pressionado.
2. Os processos urbanísticos continuam complexos
Construir uma habitação exige compatibilidade com os instrumentos de gestão territorial, projetos técnicos, cumprimento das normas aplicáveis, controlo municipal e coordenação entre várias especialidades.
Embora tenham sido introduzidas medidas de simplificação, continuam a existir diferenças significativas entre municípios ao nível da digitalização, capacidade administrativa, interpretação dos regulamentos e duração dos procedimentos.
A OCDE refere que os processos de construção continuam frequentemente demorados e que os atrasos variam muito entre municípios, devido a diferenças na transparência, digitalização e capacidade dos serviços.
Cada ano de espera pode representar:
- custos financeiros;
- atualização dos preços dos materiais;
- revisão de projetos;
- encargos com técnicos;
- imobilização do terreno;
- risco comercial;
- atraso na disponibilização da casa.
Todos estes custos acabam por ser refletidos no preço da habitação.
3. Construir tornou-se mais caro
O preço final de uma casa não é composto apenas pela estrutura do edifício.
Inclui também:
- terreno;
- projetos;
- estudos;
- taxas;
- preparação do solo;
- fundações;
- infraestruturas;
- materiais;
- mão de obra;
- transporte;
- energia;
- seguros;
- financiamento;
- impostos;
- margem de risco do construtor.
A falta de trabalhadores especializados e a baixa produtividade do setor também dificultam uma resposta rápida ao aumento da procura.
Uma agência pode influenciar o preço de anúncio, mas não controla o custo do cimento, do aço, da madeira, da energia, do crédito ou da mão de obra.
4. A procura está concentrada em determinadas regiões
Portugal não enfrenta exatamente a mesma crise em todo o território.
A pressão é especialmente forte nas áreas onde se concentram:
- empregos;
- universidades;
- hospitais;
- serviços públicos;
- transportes;
- turismo;
- investimento;
- atividade empresarial.
A Grande Lisboa, incluindo municípios como Lisboa, Sintra, Cascais, Oeiras, Amadora, Loures e Almada, enfrenta uma pressão diferente da observada em muitos concelhos do interior.
O mesmo acontece na Área Metropolitana do Porto, no litoral algarvio e em zonas turísticas da Madeira.
Podem existir casas disponíveis em regiões menos procuradas, mas isso não resolve automaticamente o problema de quem trabalha diariamente em Lisboa, Porto ou noutro grande centro urbano.
Habitação disponível e habitação disponível no lugar certo são conceitos diferentes.
5. O turismo e o alojamento de curta duração têm efeitos locais
O crescimento do turismo aumentou a procura imobiliária e tornou mais rentável utilizar determinados imóveis para estadias de curta duração.
A influência do alojamento local não é igual em todo o país. É particularmente relevante em bairros e zonas turísticas muito específicas.
Segundo a OCDE, as dormidas turísticas em Portugal aumentaram 15% entre 2019 e 2024. O organismo reconhece que o alojamento de curta duração pode ter impactos fortes em algumas áreas, embora os seus efeitos estejam geograficamente concentrados.
Portanto, o alojamento local pode pressionar certos mercados, mas não explica sozinho a subida dos preços em todos os municípios portugueses.
6. Existem muitas casas vazias, mas nem todas estão prontas a habitar
É frequente ouvir que Portugal não precisa de construir porque existem centenas de milhares de casas vazias.
A realidade é mais complexa.
Uma habitação pode estar vazia por diversos motivos:
- necessita de obras profundas;
- encontra-se num processo de herança;
- tem vários proprietários em desacordo;
- está localizada numa zona sem procura;
- não reúne condições de habitabilidade;
- está envolvida num litígio;
- pertence a um emigrante;
- aguarda licenciamento ou regularização;
- não possui acessos ou infraestruturas adequados.
A OCDE estima que mais de metade das habitações vagas, aproximadamente 350.000 unidades, poderá necessitar de intervenções de dimensão média para regressar a condições de habitabilidade. O organismo também aponta dificuldades na identificação e tributação efetiva dos imóveis devolutos.
Mobilizar essas casas é importante, mas exige financiamento, fiscalização, segurança jurídica e programas de reabilitação.
7. Portugal tem pouca habitação pública e acessível
Quando o mercado privado não consegue oferecer casas compatíveis com os rendimentos da população, a habitação pública, municipal, cooperativa ou de renda acessível deve funcionar como alternativa.
Portugal possui, porém, um parque de habitação social relativamente pequeno.
A OCDE refere que o peso da habitação social portuguesa se encontrava entre os mais baixos dos seus países membros. Embora o investimento tenha aumentado, as necessidades identificadas pelas autarquias continuam muito superiores às respostas disponíveis.
Uma imobiliária não tem a obrigação de substituir a política pública de habitação. A sua função é mediar negócios entre partes.
Sem uma oferta pública ou acessível com escala suficiente, quase toda a procura acaba por ser direcionada para o mercado privado.
8. Medidas de apoio à compra também podem aumentar a procura
Apoiar famílias e jovens na compra de casa pode ser socialmente desejável. No entanto, quando os incentivos aumentam a capacidade de compra sem que exista um crescimento equivalente da oferta, parte do benefício pode ser absorvida pelos preços.
Isto acontece porque mais compradores passam a competir pelas mesmas casas.
O Banco de Portugal salientou em maio de 2026 que a escassez de oferta continuava a pressionar os preços, num contexto em que a procura se mantinha robusta e era também apoiada por medidas governamentais.
Por isso, os incentivos à procura devem ser acompanhados por medidas capazes de aumentar efetivamente o número de habitações disponíveis.
As imobiliárias têm um papel positivo?
Sim. Uma boa agência imobiliária pode acrescentar valor real a uma transação.
Entre as suas funções encontram-se:
- promoção profissional do imóvel;
- qualificação dos interessados;
- organização de visitas;
- verificação inicial da documentação;
- comunicação entre comprador e vendedor;
- apoio na negociação;
- articulação com bancos, advogados, solicitadores e notários;
- preparação do contrato-promessa;
- acompanhamento até à escritura;
- redução de conflitos emocionais entre as partes;
- prevenção de negócios com sinais de irregularidade.
A mediação imobiliária é uma atividade regulada. O exercício legal depende de licença concedida pelo IMPIC e da existência de seguro de responsabilidade civil ou garantia equivalente.
O problema não é a existência das imobiliárias. O problema surge quando a mediação é exercida sem transparência, competência, verificação ou respeito pelos interesses dos intervenientes.
Como reconhecer uma imobiliária responsável?
Confirme a licença AMI
O número da licença deve constar da publicidade, dos documentos e da identificação da empresa.
A licença não garante que nunca ocorrerá um problema, mas confirma que a empresa está habilitada a exercer a atividade e sujeita à supervisão aplicável.
Leia o contrato antes de assinar
O contrato de mediação deve identificar claramente:
- o imóvel;
- o negócio pretendido;
- a remuneração;
- o IVA;
- os serviços prestados;
- a duração;
- a existência ou não de exclusividade;
- os efeitos da exclusividade;
- o seguro de responsabilidade civil.
A lei determina que o contrato seja reduzido a escrito e que contenha estes elementos essenciais.
Questione o preço recomendado
Peça à agência que explique:
- quais foram os imóveis comparados;
- se os valores correspondem a anúncios ou vendas;
- há quanto tempo estão anunciados;
- quais as diferenças de área, localização e conservação;
- qual é o prazo provável de venda;
- que margem de negociação foi considerada.
Desconfie de promessas de preços muito superiores às apresentadas por todos os restantes profissionais, sobretudo quando não existe uma justificação objetiva.
Confirme os serviços incluídos na comissão
Nem todas as agências prestam exatamente o mesmo serviço.
Pergunte se estão incluídos:
- reportagem fotográfica;
- vídeo;
- planta;
- certificado energético;
- publicidade destacada;
- visitas;
- qualificação financeira dos compradores;
- apoio documental;
- acompanhamento jurídico;
- preparação do contrato-promessa;
- acompanhamento da escritura.
Comparar apenas a percentagem da comissão pode conduzir a uma decisão errada.
Exija que as propostas sejam apresentadas por escrito
As propostas devem indicar, pelo menos:
- preço;
- prazo;
- valor do sinal;
- necessidade de financiamento;
- condições suspensivas;
- bens incluídos;
- data prevista para a escritura.
A documentação das propostas protege o proprietário, o comprador e a própria agência.
O que pode ser feito para reduzir os efeitos negativos?
1. Melhorar a transparência dos preços reais
Portugal dispõe de estatísticas oficiais agregadas sobre preços de transação, mas não de uma plataforma pública simples que permita consultar o preço efetivo de cada imóvel vendido, rua a rua, com proteção adequada dos dados pessoais.
Uma base de dados mais transparente poderia permitir que cidadãos e profissionais comparassem:
- preço anunciado;
- preço efetivamente transacionado;
- área;
- tipologia;
- data da venda;
- localização aproximada;
- estado e características relevantes.
Isso reduziria a dependência de anúncios ativos como referência de mercado.
2. Separar opinião comercial de avaliação independente
O estudo comercial preparado por uma agência tem utilidade, mas não deve ser apresentado como uma avaliação técnica independente.
Em operações importantes, o proprietário pode solicitar uma avaliação externa, especialmente quando existem:
- partilhas;
- heranças;
- divórcios;
- imóveis atípicos;
- terrenos;
- prédios para investimento;
- divergências significativas entre estimativas.
3. Tornar as comissões mais claras
O consumidor deve compreender:
- quem paga;
- quanto paga;
- quando a remuneração é devida;
- que serviços estão incluídos;
- se existem despesas adicionais;
- quais são os efeitos da exclusividade;
- se a comissão é calculada sobre o valor total da venda.
A transparência não implica impor um único modelo. Podem coexistir comissões percentuais, valores fixos e serviços por níveis, desde que o cliente consiga comparar propostas.
4. Reforçar as regras de publicidade
Os anúncios deveriam identificar claramente dados como:
- área útil e área bruta;
- situação do licenciamento;
- certificado energético;
- existência de ónus conhecidos;
- preço;
- tipologia;
- características efetivamente comprováveis.
Expressões subjetivas são normais na publicidade, mas informações técnicas ou legais não devem ser apresentadas de forma ambígua.
5. Aumentar a oferta de habitação
Nenhuma melhoria na mediação resolverá a crise se continuarem a existir muito menos casas do que famílias à procura.
É necessário:
- simplificar os procedimentos sem reduzir a segurança;
- aumentar a capacidade técnica das autarquias;
- disponibilizar solo adequado;
- reabilitar edifícios;
- mobilizar imóveis devolutos;
- criar habitação pública e acessível;
- apoiar cooperativas;
- promover arrendamento de longa duração;
- utilizar métodos construtivos mais eficientes;
- aumentar a produtividade da construção.
A resposta europeia à crise de acessibilidade também tem vindo a defender a redução da carga administrativa, a aceleração dos licenciamentos e a utilização de materiais e técnicas de construção inovadoras, sustentáveis e economicamente eficientes.
Qual é a posição da MF Casas de Madeira?
Na opinião da MF Casas de Madeira, a crise da habitação não será resolvida procurando um único culpado.
As imobiliárias podem influenciar os preços anunciados e devem ser responsabilizadas quando utilizam informação enganosa, escondem factos relevantes ou criam artificialmente pressão sobre compradores e vendedores.
Mas uma agência séria, transparente e profissional é uma parceira importante. Ajuda a organizar transações complexas e pode evitar erros com consequências financeiras graves.
O verdadeiro desafio português está em aumentar a oferta de habitação legal, segura, eficiente e compatível com os rendimentos das famílias.
As casas de madeira podem fazer parte dessa resposta, especialmente quando permitem processos construtivos industrializados, melhor controlo de custos e maior rapidez de execução.
Contudo, uma casa de madeira não dispensa:
- terreno com viabilidade urbanística;
- projeto adequado;
- controlo prévio municipal aplicável;
- cumprimento das normas técnicas;
- fundações e infraestruturas;
- eficiência energética;
- acompanhamento por técnicos habilitados.
Não existem soluções milagrosas. Existem soluções mais eficientes quando são devidamente planeadas e executadas.
Conclusão: as imobiliárias são culpadas?
Não, as imobiliárias não são as principais responsáveis pela crise da habitação em Portugal.
A crise resulta sobretudo de um desequilíbrio prolongado entre oferta e procura, agravado por baixo investimento, lentidão urbanística, custos de construção, concentração da população, turismo, imóveis devolutos e pouca habitação pública.
Mas isso não significa que todas as práticas do setor imobiliário sejam neutras.
Preços de anúncio sobrevalorizados, promessas irrealistas, falta de transparência, processos informais de propostas e marketing excessivamente especulativo podem contribuir para amplificar o problema.
A solução não passa por eliminar a mediação imobiliária. Passa por exigir:
- mais transparência;
- dados reais;
- contratos claros;
- profissionais responsáveis;
- fiscalização;
- maior oferta habitacional;
- melhores políticas públicas;
- métodos construtivos eficientes.
A habitação é simultaneamente um direito essencial, um património familiar e um ativo económico. Encontrar o equilíbrio entre estas três dimensões será um dos maiores desafios de Portugal nos próximos anos.
Perguntas frequentes
As imobiliárias decidem o preço das casas?
Não. O preço é definido pelo proprietário e validado, ou não, pela procura. No entanto, a agência pode influenciar fortemente o valor inicial através da sua recomendação comercial e da estratégia de promoção.
As comissões imobiliárias aumentam o preço dos imóveis?
Podem contribuir indiretamente. O vendedor pode tentar incorporar a comissão e o respetivo IVA no preço pedido. A possibilidade de transferir esse custo para o comprador depende, porém, da procura e da negociação.
O preço anunciado corresponde ao preço da escritura?
Não necessariamente. O anúncio representa o valor pedido pelo vendedor. O preço final pode ser inferior, igual ou, em situações de forte concorrência, superior.
Uma imobiliária pode fazer uma avaliação oficial?
Uma agência pode realizar um estudo comparativo ou apresentar uma opinião comercial. Isso não deve ser confundido com uma avaliação imobiliária formal e independente.
O alojamento local é responsável pela crise?
Tem impacto em determinadas zonas turísticas, sobretudo onde existe uma forte concentração de alojamentos de curta duração. Não explica, isoladamente, a crise habitacional em todo o território nacional.
Os compradores estrangeiros são a principal causa?
Podem aumentar a pressão em regiões específicas e em determinados segmentos. Contudo, a crise resulta de vários fatores e já existiria sem compradores estrangeiros, devido à escassez de oferta e aos restantes problemas estruturais.
Porque existem casas vazias e, ao mesmo tempo, falta de habitação?
Porque muitas casas vazias estão degradadas, bloqueadas por heranças, situadas em locais com pouca procura ou sem condições imediatas de habitabilidade. Uma casa contabilizada como vaga não é automaticamente uma casa disponível.
Como escolher uma boa imobiliária?
Confirme a licença AMI, compare propostas, leia o contrato, questione a recomendação de preço, verifique os serviços incluídos e exija transparência na apresentação das propostas.
Construir mais fará os preços baixar?
O aumento sustentado da oferta tende a reduzir a pressão, mas os resultados dependem da localização, tipologia, custos e velocidade de construção. É necessário construir habitação adequada às necessidades e rendimentos reais da população.
As casas de madeira podem ajudar a combater a crise?
Podem contribuir para aumentar a oferta através de processos mais industrializados e eficientes. Mas devem cumprir as mesmas exigências urbanísticas, técnicas e legais aplicáveis a uma habitação permanente.
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